segunda-feira, 27 de maio de 2013

quarta-feira, 25 de maio de 2011

NOTA DE FALECIMENTO

Prezados(as) alunos(as),

Soube hoje que o professor Harold Garfinkel faleceu no mês passado, 21 de abril de 2011. O pai da Etnometodologia deixou-nos um grande legado que precisa ser cuidado. Garfinkel era professor emérito da Universidade da Califórnia.
Recebi um e-mail de uma aluna de mestrado:

Boa noite professor,

Eu queria conversar com vc sobre a metodologia, tá no projeto:

A presente pesquisa é caracterizada como um estudo etnográfico, com abordagem qualitativa, tendo como referencial teórico-metodológico a etnometodologia (SILVA, 1998; 2010; COULON, 1995a; 1995b).

O Roberto disse que o estudo etnográfico englobaria a etnometodologia, eu queria definir isso pra cair dentro da revisão de literatura, mantenho as duas abordagens ou faz só etnografia ou só etnometodologia?



Adriana,

A abordagem etnográfica é ampla, possui vários autores que devem ser utilizados. A etnometodologia pode ser considerada como dentro da ambiência etnográfica, mas possui estatuto metodológico próprio.

No teu caso, penso que deves utilizar a etnometodologia e seus conceitos-chave aliada ao DSC e à observação participante.

Faríamos uma tríade ou triangulação.

Em relação à Etnometodologia deves focalizar:

1. Ações práticas - ou seja, o que de fato acontece no cotidiano do profissional de Educação Física quando atua numa equipe multidisciplinar.

2. Reflexividade - ou seja, verifique que o discurso apresenta características que podem ser utilizadas para descrever o mundo social deste profissional e você deve explorar isso nas entrevistas.

3. Relatabilidade - ou seja, existe uma lógica do senso comum que os autores utilizam para se fazerem compreender. Em inglês o termo é accountability. RELATABILIDADE/INTELEGIBILIDADE/RESPONSABILIDADE

Para que os atores possam descrever, interpretar, explicar, contar o mundo social é necessário que este esteja de uma maneira ou de outra disponível, que seja inteligível, descritível, analisável, observável. Entretanto, de onde procede esta accountability? Ela não é dada, mas produzida. Para Garfinkel, ela é uma realização prática dos atores sociais em interação, indissociável da auto-organização de suas atividades rotineiras. Ela se dá a partir da objetividade (objetivação) do mundo social como produto de atividades práticas desses atores.

Uma primeira aproximação com a noção de accountability pode ser o da “representação do mundo” existente na mente de uma pessoa, servindo de base para a tomada de decisões de atividades práticas; mas trazendo certo número de implicações, tais como: o mundo fornecido pela accountability é a representação de um universo local, centrado principalmente ao redor de um grupo limitado de pessoas (por exemplo: terra, aldeia e outras aglomerações sociais).

A representação é de certa maneira implícita.

A representação é socializada: ela é partilhada interativamente entre os membros do grupo; há uma accountability do grupo que se articula com a accountability individual.

Accountability está em evolução constante porque qualquer evento soma-se às representações prévias do mundo cujos significados são interdependentes, os elementos novos são suscetíveis de modificar as bases de modo importante das representações prévias. Há um compartilhamento de responsabilidades, é um processo democrático, interativo e transparente. Talvez pudéssemos utilizar a idéia da divisão dos poderes (legislativo, judiciário e executivo) na dimensão micro, de modo que os atores se auto-regulam e se vigiam.


4. Indicialidade - ou seja, deves anotar e tentar compreender os termos indiciais, isto é, termos que a princípio não compreendes. Deves pedir ao entrevistado para explicar melhor, daí vais ao campo observar e confirmar o relato do profissional por meio das observações participantes.

5. Noção de Membro - ou seja, a noção de pertencimento (ser membro do grupo) é fundamental em etnometodologia, pois essa noção é condição prévia para toda a atividade de análise e descrição das atividades sociais do grupo pesquisado. As implicações dessa exigência são numerosas, mas uma das mais importantes é a que faz referência à linguagem natural. Se a linguagem natural do grupo não é conhecida, para ser compreendida, necessita que a pessoa seja membro, caso contrário ela não entende o que se diz realmente no grupo. Para ser membro do grupo é necessário:

- aprender a linguagem natural do grupo, que possui uma série de termos indiciais;

- apreender a accountability do grupo.

Você deve verificar se o profissoanl de EF apresenta a linguagem natural do grupo se ele já possui a relatabilidade/reponsabilidae/accountability do grupo.

Em relação à Relatabilidade, você deve observar que:

a) há um caráter prospectivo e retrospectivo no discurso dos entrevistados. Às vezes eles antecipam algo que a posteriori será explicado no discurso. Há de se compreender que os entrevistados estão elaborando as respostas e deve-se dar tempo para que eles possam encontar os melhores termos e ideias. Em outras ocasiões, o entrevistado volta no discurso para explicar algo que não ficou muito claro anteriormente.

b) Há que se observar as cláusula etcetera, ou seja, algumas vezes os entrevistados usam essa cláusula, pois acreditam que as pessoas já compreendam aquilo. Por exemplo, o entrevistado está explicando algo e em algum momento fala " é isso e etc.". Esse etc. é importante e deve ser explorado.

c) Há que observar as Formas Normais Cristalizadas, ou seja, os Patterns, isto é, os padrões. Existem formas nas ações e no discurso que não são mais problematizadas pelos membros dos grupos; caíram no território do habitus. Poderíamos dizer que estão naturalizadas, reificas, ou seja, não são mais percebidas e o pesquisador deve trazer isso à tona e revirar o leito do rio. Como diz a música do Mick Jagger "Old Habits Die Hard".

d) Há que se observar a Reciprocidade das Perspectivas, ou seja, as pessoas não veem o mundo da mesma forma, mas ajustam seus pontos de vista para que a interação ocorra. Há que se observar aqui as relações de poder existentes nas interações sociais, muitas vezes percebe-se que um grupo calou-se diante de uma situação e isto tem um significado que precisa ser compreendido. Neste caso, não devemos simplicar, pois existe o "não-dito".

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Prezados colegas, o professor Fabiano Pries Devide lançou este excelente exercício: relacionar os conceitos-chave da etnometodologia com a identificação do problema e com a aplicabilidade metodológica no projeto de pesquisa.

Ines encaminhou este ótimo texto. Não deixem de ler. Encaminhem os seus também. Carlos Alberto Figueiredo da Silva.

Por INES PETEREIT

1. Prática, realização: .“a realidade social é construída na prática do dia a dia pelos autores sociais em interação; não é um dado preexistente.”

Como pesquisadora, posso definir previamente as experiências que serão vivenciadas pelo grupo eleito. No entanto, a elaboração, ainda que minuciosa, será apenas uma “moldura vazada”, a ser preenchida unicamente pela vida em trânsito.
. “as mudanças macro se dão a partir das operações micro”

Posso relacionar o macro à superestrutura criada como elaboração teórica no ato da pesquisa. Nessa relação, as operações micro são os múltiplos agenciamentos que os autores-sociais fazem entre si, na intrincada trama do dia a dia. A ordem macro tende a ser rígida pois, para se manter, precisa negar a transitoriedade. A vida, porém, se afirma através da multiplicidade e da transformação. Assim, há uma tensão constante entre as ordens macro e micro, entre a rigidez de uma forma estabelecida e a inconstância da vida em devir. Sinto que essa polaridade está expressa na elaboração teórica quando submetida à prática. Nessa compreensão, é importante que o pesquisador confira mais permeabilidade às suas concepções teóricas, apreendendo aquilo que a experiência viva está lhe comunicando.


2. Indicialidade: . “(...) a indicialidade é assim essa incompletude que toda palavra possui. Ela precisa estar situada num contexto específico para revestir-se de significado”

Identifico uma qualidade de indicialidade no grupo em questão, a terceira idade, ligada a ordem do tempo.
Freqüentemente nossas senhoras do projeto Renascer partilhavam memórias de um tempo que nós, a equipe, não havíamos vivenciado. Eram nomes e expressões que despertavam profunda memória afetiva conforme pudemos testemunhar.
Para amainar o hiato entre nossas gerações decidimos nos dedicar à recuperação dessa indicialidade, atualizando-a através da experiência teatral. Assim o grupo materializou suas memórias, suas indicialidades em um ato cênico homenageando as cantoras do rádio.
A partir de então pudemos partilhar algumas expressões que passaram a constituir uma outra ordem de indicialidade. Um exemplo: Quando desejávamos que a atriz se apropriasse do espaço cênico podíamos nos expressar evocando a presença cênica da diva Marlene. Assim a indicialidade do passado se tornou uma referência para as experiências atuais.
Cumpre cuidar que a recuperação dessa indicialidade seja um exercício de projeção para o futuro. Caso contrário estaríamos estimulando a recusa do tempo: “ (...) é o futuro que decide se o passado está vivo ou não.” (Sartre, O Ser e o Nada) e ainda “ (...) um homem que tem como projeto progredir, decola de seu passado; define seu antigo eu como o eu que não existe mais, e se desinteressa dele. Ao contrário, o projeto de alguns para si implica a recusa do tempo e uma estreita solidariedade com o passado” (Beauvoir, Simone. A Velhice)

3. Reflexividade: Capacidade que os autores sociais tem de refletir o mundo que os cerca, ainda que a reflexão não lhes seja inerente. Antecipação da reflexão sobre o contexto de maneira dialógica, no aqui e agora.

4. Relatabilidade: “ É a materialização da capacidade que o indivíduo tem para descrever e construir a realidade”

Sempre dedicávamos parte de nosso tempo de trabalho às conversas surgidas espontaneamente. Compartilhando seu dia a dia, seus etnométodos eram redimensionados quando tomados como fonte de inspiração na criação cênica. Considero que nesse processo o grupo adquiriu mais consciência de sua capacidade co-criadora da realidade – à inerente reflexividade somou-se a reflexão.
O ritmo acelerado que a cultura capitalista impõe acentua o descompasso dos idosos, cujas falas, muitas vezes, são préviamente estigmatizadas pela sociedade. Acredito que a consciência da reflexividade aumente o empoderamento dos anciãos. Em uma via de mão dupla, eles reconhecem a capacidade de afetarem o todo e não apenas de serem por ele afetados.
Acredito que seja particularmente importante, à respeito desses tópicos, o exercício de recuperação da identidade, tão negado pela cultura de massa. A reflexividade de cada um é única na medida em que é criada a partir faz fontes íntimas de significação, pelas quais damos sentido ao mundo.
Valorizar os matizes das reflexividades plurais através da expressão cênica partindo do reconhecimento do sujeito enquanto um autor social é uma das observâncias de meu estudo. A

5. Noção de membro: “membro é a pessoa dotada de um conjunto de procedimentos, métodos, atividades, savoir-faire, que a tornam capaz de inventar dispositivos de adaptação para dar sentido ao mundo que a rodeia”

Ao trabalhar com a 3ª idade considero relevante apreender os dispositivos de adaptação que cada um como membro dessa categoria já desenvolveu. Por outro lado é comum encontrar situações nas quais o idoso negue sua temporalidade : (...) a maioria dos velhos encontra-se nesse caso; eles recusam o tempo porque não querem decair; definem seu antigo eu como aquele que continuam a ser: afirmam a sua solidariedade com a sua juventude.” (Beauvoir, Simone. A Velhice).
A aceitação de sua condição existencial é um desafio para o idoso em uma sociedade onde a morte permanece como um tabu. Ao não se apossar de seu tempo, o idoso é freqüentemente manejado por outras mãos que por ele se responsabilizam. Superar em si os preconceitos quanto à velhice, assumindo o corpo presente é, ao meu ver, um fator fundamental para que a autonomia da condição de membro possa ser exercida.
Muitas vezes, nas dinâmicas teatrais, as senhoras se comparavam à equipe, jovem e cheia de vigor. A partir dessa observação, passamos a não mais demonstrar os exercícios propostos, a fim de que elas não fixassem um padrão associado à juventude. Assim, elas eram desafiadas a assumirem seus próprios corpos, sem modelos prévios, encontrando as adaptações necessárias no calor de cada momento.

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